2 de outubro de 2019

Despertar

A vida é sutil, mas incisiva e justa. Não há uma folha caída sem razão, pois tudo teve uma causa. O efeito não é resultado do acaso jogado a esmo vindo do céu. O efeito é consequência de atitudes, circunstâncias, condutas e do nosso próprio fel.

A gente cai e por vezes se defende sentando no lugar que as vítimas ocupam, clamando pela piedade de desconhecidos, se escondendo por detrás das vestes de um coitado para que não sejamos julgados, como um réu.

Mas não adianta insistir. Não adianta desistir. A vida passará como uma onda e quem não estiver preparado irá se afogar. O tempo continua seu curso, sem parar. O curso continua seu caminho, sem parar. Sem parar é como a vida não para de caminhar.

Nos apegamos fácil ao que nos faz sentir melhor, o que nos tira a impressão das mazelas que carregamos. Porque lidar com isso dói. Porque acordar arde os olhos, embrulha o estômago. Porque perceber, de fato, a realidade, nos torna duros demais e responsáveis, conscientes, sem desculpas para dar.

Mas nós queremos a desculpa da ignorância. É mais fácil dizer que não sabia, que não teria como prever. Que não nos contaram. Que não nos ensinaram a viver. Por vezes, ela, a vida, arranca de nós nossos brinquedos para que percebamos que não precisamos mais brincar.

Me diz, aonde isso tudo vai parar? Aonde você quiser chegar. Vivemos em intensos loops e nos apegamos à coisas e pessoas para suprir o vazio que carregamos todos os dias. Para não lembrar que nos falta algo. Para nos lembrar de que alguém foi embora e não se importou. Para nos lembrar que você decidiu ir embora e ninguém notou. O que é que há?

A vida ensina de maneira suave, sutil. A vida mostra o caminho, mas a gente não enxerga e quando finalmente vê, fecha os olhos. A vida te dá uma porrada para você largar de ser tão irredutível, a vida te tira coisas, te leva para o desconforto para você levantar e sair.

Mas não adianta, né? A gente continua pisando na lama, com os pés descalços. A gente continua seguindo o mesmo caminho, mesmo sabendo que a rua é sem saída. A gente machuca as mãos de tanto segurar o que já deveria ter ido. A gente insiste em ser o que não é e a vida, calmamente, nos derruba, de cara no chão. Diz: Quero ver você sair daqui!

Por vezes, no chão, sem força, chorando, a vida arranca os nossos brinquedos para que percebamos que não precisamos mais brincar com eles e para que, finalmente, entendamos que deitar na cama das vítimas é só mais um jeito de se atrasar.

Na maioria das vezes, o que dói é o que a vida tira de nós para que entendamos de uma vez por todas que não precisamos mais daquilo, mas é isso né, não adianta avisar.

18 de setembro de 2019

Correndo

Estamos correndo para onde, se não há para onde ir? Corremos até as canelas doerem, como se fossemos perder o trem que irá partir. Mas para onde estamos correndo se a viagem não tem fim. Não temos para onde ir.

Para onde vamos com tanta pressa, como se amanhã não pudesse esperar. Perdemos o pôr do sol, a brisa, perdemos as tardes, os amigos, os empregos, o dinheiro. Perdemos a nós mesmos em uma busca desenfreada por nada que exista aqui.

Os dias passam e junto vão nossas esperanças, nossos sonhos. Quanto de ti você abriu mão a cada dia que passou. Quantos dias foram produtivos ao ponto de servirem à edificar a estrutura do que sempre sonhou? Há muito ou muito pouco por vir.

O desafio é andar sozinho, quando sentir-se só. É quase nunca, mas por vezes dá um nó. Poderia sim, ser muito melhor. Mas perdido nos talvezes e ses que jamais darão resposta, por não acontecerem. Tire do pouco que sabe o tanto que há em ti.

Estamos correndo para onde, se não há para onde ir? Corremos até as canelas doerem, como se fossemos perder o trem que irá partir. Mas para onde estamos correndo se a viagem não tem fim. Não temos para onde ir.

Estamos correndo para onde, se não há onde chegar? Corremos até faltar o ar e a estrada ainda se perde no olhar, como se nos perdêssemos na areias do desenho, com sede, sem alma, tão seco, nem vi.

Afinal, para onde vamos com tanta pressa como se amanhã não pudesse esperar. Amanhã chegará de qualquer forma, pelo menos para a maioria de nós. É preciso aprender a estar para depois arriscar chegar em algum lugar, ter para onde ir não é para qualquer um...

Adilson Guimarães

2 de setembro de 2019

Dores que não são minhas

Sinto tua dor, daqui. E mesmo que não sejam minhas, doem em mim. Sinto a cada dia o vazio que não lhe cabe, sinto como se fossem em mim. Eu sei que sofre. Eu sei que dói. Eu sei que são feridas enormes que não cabem em ti.

Sinto teu desespero por não entender o caminho que está seguindo e, mesmo que não tenha nada a ver comigo, vejo tudo que há, enfim. Tuas perguntas tem respostas mais dentro do que fora. Teu caminho não é na euforia de uma noite acompanhada. Eu sei que dói e que a cicatriz não fecha, outro dia eu quase vi.

Sinto tua dor de longe e sei que tu poderias ser bem mais que isso. Não tivesses alimentado os monstros do orgulho e do ego como se fossem animais de estimação. Eles cresceram e te roubaram Levaram tudo que poderia ter e esconderam tua essência em algum lugar. E agora vive assim, perdida em si.

Não seria capaz de apontar em qual direção te encontrar ou sequer ter a petulância de arriscar dizer quem és tu, pois só tenho pequenos fragmentos de alguém que não existem mais, eivados dos meus próprios ideais e planos frustados. Se eu disser que sei exatamente alguma coisa, pode estar certa de que menti.

Sinto tua dor e entendo que nada poderia fazer para ajudar, pois também estou perdido em algum lugar. Mas já conheço algum caminho. Já peguei trilhas e atalhos. Já quase me afoguei no lago e passei noites frias jogado na sarjeta. Perdido. Sem consciência. Tomado pela dor. Enfim.

Sinto tua dor e sinto muito por doer. Sinto mais ainda por saber que arrancar tudo isso do seu peito não depende mais de mim, aliás nunca dependeu de nada além de você. Sinto tua dor daqui, sim, eu até acho que vi. Eu sei que são feridas que não cabem mais em ti, mas também sei que tudo isso que não sei descrever é muito menor do que tudo de bom que há em ti.

30 de julho de 2019

Era você. Eu vi.

Essa noite sonhei contigo a noite toda e nada do que eu diga traduziria o sentimentos que tive ali.

Era você, eu vi, sentada na cadeira do cinema. Eu te olho. Você sorri. Era a imagem mais linda que já tive em frente a mim.

Essa noite sonhei contigo e de alguma forma voltei naquele dia, onde o dia a dia era te ter por aqui.

Era você, eu vi, deitada na rede, e minha cabeça pousada em seu peito, o silêncio era a própria paz dentro de mim

Essa noite eu sonhei que você estava aqui e eu estava aí e eu não ia embora dessa vez. Você ficava. Você sorri. Você ainda era alguém, pra mim

Era você, em si. Essa noite eu sonhei que estávamos de volta um ao outro. Era como a imagem de um quadro, eternizada em mim

Sim, era você, eu vi. Sorrindo. Sumindo. Tão longe. Era você. Foi você. Era uma vez eu, aqui. Acordei. Menti.

Essa noite eu sonhei alguma coisa, tinha a ver com você. Enfim.

16 de julho de 2019

O presente presente

Manter-se presente. A arte de estar aqui, agora e não em qualquer outro lugar. Aprendiz de investimentos, concede ao tempo a importância e a nobreza que lhe cabem.

Manter-se presente e não hipotecar seu futuro ao passado. Não viver voltando aonde não existe mais nada, sequer procurar pelo ar que respirou outrora, é, definitivamente, uma arte.

Manter-se distante das amarras do apego às cicatrizes que carrega no corpo, conseguir olhar como a uma obra no museu, contemplar, relembrar, aprender e só. Somente só. Estar aqui é uma dádiva.

Manter-se na estrada sentindo cada parte do corpo, os pés nos pedais, a mão no volante, no controle do próprio destino, caminhando e aproveitando cada paisagem, cada metro de asfalto, cada pensamento e que chega e se vai, como pássaros. 

É incrível estar aqui e agora, ter o controle de si, ter a força de um homem que conhece os caminhos pelos quais percorreu e que não tem arrependimentos ou medos. Tudo foi extramente necessário para se ser o que se é e para estar onde se está. 

Manter-se presente, como o presente que é o agora e não qualquer outro lugar. Não sofrer pelo que não mais há e finalmente, aproveitar os frutos de ter seguido em frente.

Manter-se tão presente que o futuro está logo ali, mas não há ansiedade alguma em chegar. O agora é bom de aproveitar. O passado é bom de relembrar. O céu é lindo quando está azul e também quando as nuvens chegam. A luz do sol é forte e esquenta e a noite reverbera o luar na alma.

Manter-se presente e forte. As costas largas. A boca em silêncio. Os olhos falantes. Os ouvidos atentos. Não é mal ser o que se é. Manter-se presente é uma dádiva que só se aprende depois que muito fugir para o presente, para o passado, até perceber que só se tem a possibilidade de ser, aqui, agora.

Manter-se presente e basta olhar quem tu és para saber o necessário. Quem fostes já não importa. Quem será importará em alguma momento, mas não agora. 

Manter-se presente é o maior presente que pode ser dado a si mesmo. 

Ter o controle, afinal, é entender que não se controla nada além de si mesmo.

Manter-se presente. A arte de estar aqui, agora e não em qualquer outro lugar. Aprendiz de investimentos, concede ao tempo a importância e a nobreza que lhe cabem.

Manter-se presente e não hipotecar seu futuro ao passado. Não viver voltando aonde não existe mais nada, sequer procurar pelo ar que respirou outrora, é, definitivamente, uma arte.

Manter-se distante das amarras do apego às cicatrizes que carrega no corpo, conseguir olhar como a uma obra no museu, contemplar, relembrar, aprender e só. Somente só. Estar aqui é uma dádiva.

2 de julho de 2019

Ainda.

Minha barriga ainda esfria. Meus olhos não se conformam de não poderem mais ver. 
Meus ombros pesam em carregar essa ausência. Essa incerteza. Esse orgulho. Esse destempero. 
Sou mais do mesmo de sempre misturado a uma parte inédita que aprendeu a sobreviver. 
Onde estão minhas palavras além de mim? Será que escrevo por mim?
Agora meus olhos só conseguem ver lugares, coisas e isso é o mais próximo de ver o que já viu, mas meus olhares não, meus olhares vão além.
Meu corpo ainda arrepia e vez ou outra sinto de novo aquela agonia. Tudo que criei ainda habita em mim. Tudo que virei pelo que fiz de mim.
Falta sabor...
Será que escrevo por mim ou por ti?
Talvez o sentido disso tudo esteja na falta de brilho, na falta de brio, pois escrevi por ti. Depois por mim. Depois já não sabia por quem, nem por quê. 
Hoje eu só escrevo porque sobrevivi. É parte de mim que vive, que pulsa. Hoje escrevo e respiro, não necessariamente nessa ordem.

10 de junho de 2019

Idiota de toda espécia

Como você pode ser tão idiota? 
Dar tudo de si por quem não sabe seu nome. 
Amar quem não lembra de você.
Por que diabos és tão idiota? 
Conhecer o seu corpo e insistir em fazer o que não te faz bem. 
Consumir o que estraga tua alma.
Como pode, Deus? 
Continuar mantendo velhos hábitos,, velhos resultados, velhas companhias...
Como pode ter os mesmos pensamentos todos os dias?
Como você pode ser tão idiota e carregar o peso de uma pedra que não é mais sua?
Alimentar animais que não são mais seus.
Ter medos que não te pertencem.
Quem eras tu, afinal? 
Suportou ser rebaixado por si mesmo e colocado como inútil por quem não te respeitou?
Quem você gostaria de ser, idiota? 
Será que ainda existe algum lugar aonde quer chegar, além do outro lado da rua?
Como podes, afinal, pedir a Deus alguma coisa se não sabes, definitivamente, quem és, o que queres?
A verdade é que as tuas mazelas estão mais arraigadas e profundas que tu podes imaginar, já que o erro é ceder a ti mesmo.
Não importa por onde andas, com quem andas, o que houve, o que ouve, aonde esteve, de quem pensou que podia ser.
Como você pode ser tão idiota e achar que o tempo esperaria por ti?
Porque diabos tão inocente, vindo de um lugar tão podre...
Quantas vezes se pegou fazendo o que reprovava, quantas vezes se tornou o que mais te irritava?
Quem é você agora? 
Por que diabos insiste em não ver que quem tu foi não existe mais, morreu abandonado na esquina, embriagado pelo passado e asfixiado pelo futuro que sequer chegará. 
Como poder cara, ser assim, tão idiota?