19 de janeiro de 2019

De pai para filho

Meu filho, quando você chegar as coisas mudarão. Mudarão para adequar as energias em volta do seu ser.

Quando você chegar, meu filho, você vai ver, que vou te levar, te ensinar, te guardar, me render.

Vou te levar para dar uma volta por aí, ver o pôr do sol na beira do lago. Te levarei até as pedras das minhas histórias e te banharei no mar.

Eu vou levar você até o mundo, mas não sentirás medo, porque eu estarei lá para tudo.

Quando você chegar, meu filho, vou te levar para jogar video game, se ainda existir. Vamos jogar bola no final da tarde sem você precisar pedir e mesmo com o trabalho apertado, arrumarei tempo para te ver sorrir.

Eu vou te levar para a escola e você aprenderá a viver sozinho, mas sempre sabendo que estarei contigo, que estarei lá para tudo.

Eu vou te mostrar meus filmes favoritos e você assistirá comigo. Vou te contar sobre a história das obras e sobre os artistas, sobre os atores, sobre as visitas.

Você vai crescer me ouvindo e ouvindo minhas bandas preferidas, para saber do que eu gosto, do que aprecio e você fará sim, suas próprias escolhas.

Quando você chegar eu vou te levar pela vida, te levarei na primeira festa, te buscarei no final, até você ter vergonha de mim, mas tudo bem, será normal.

Vou te ensinar sobre filosofia e sobre as ideias que permeiam minha mente, terei alguém, uma parte de mim para conversar sobre mim, sobre ti, sobre o mundo, sobre a gente.

Vamos nos perder pelo mundo, conhecendo de tudo. Vamos perder a hora e encher essa vida vazia de conteúdo e você saberá sim, que eu sempre estarei lá para tudo.

Eu vou te ensinar a fazer a barba quando a hora chegar e acharei engraçado quando, assim como eu, você  desistir de tirar. Assistirei suas escolhas, feliz a me orgulhar.

Quando você chegar eu vou tirar todas as dúvidas que possam lhe acertar e aprenderei mais ainda só com o seu olhar e ao final de tudo, você terá orgulho de mim.

Eu vou viajar e não serei apenas uma foto na estante, eu serei você. Quando se olhar no reflexo do espelho, terá orgulho de ser o que se tornou e lembrará de mim a cada dia, porque você será uma parte de mim nesse mundo.

E eu não poderia morrer mais feliz, sabendo que você cresceu e que eu criarei morada no seu coração, afinal, eu sempre estarei aqui para tudo.

16 de janeiro de 2019

Paciência

Paciência que é difícil alcançar. Saber esperar é uma arte, pois assistir o tempo passar sem perspectiva de chegada exige muito, exige demais. 

Saber ver as horas, os dias mudando e não se deixar cobrir pela sensação de que estamos no mesmo lugar, no mesmo barco, desgasta muito, desgasta demais.

Como diziam os orientais - me pego pensando - quem sofre antecipadamente, sofre em dobro. Se não chegou, afinal, não é a hora ainda. Aonde estamos além de perdidos dentro de nós mesmos? 

Saber como vão as coisas são distrações corriqueiras que disfarçam a cólera do tempo que não passa. Da hora que não chega. 

Paciência, meu Deus, é difícil de alcançar. Ver todos aqueles rostos passando, ver o relógio se repetindo, enquanto me repito tanto quanto aqueles ponteiros britânicos.

Saber ver as escoras que colocamos em nossos calcanhares, aguardando que o desejado desejo se concretize nas vidas de quem trabalha e investe em alguma coisa relevante exige muito, exige demais.

Mas, no final das contas não adianta nada gritar, tampouco espernear, pois quanto mais o tempo passa, menos demora a passar. Quanto mais se espera, menos se há de esperar.

Nos deixamos levar pela agonia e limite que são nossos anseios medidos apenas até onde nosso braço chega e apenas e tão somente até onde alcança o nosso olhar, mas, em verdade nos foi dito, que há muito mais entre o céu e a terra que possa supor nossa vã filosofia.

Paciência é saber que há a hora certa para tudo e que essa hora, vez ou outra, chega para todo mundo. É saber que não há regras nesse jogo e que o mundo pode sim, ser imundo. Então constantemente nos pegaremos sendo e fazendo aquilo que julgamos terrível, sem perceber que as pessoas são todas muito menos do que imaginam e mais do que enxergam.

Paciência é saber colocar nas mãos de quem sabe o que faz, os caminhos das estradas, as regras do jogo, os desejos do coração, os anseios da alma e as inclinações do espírito.

Paciência é ser o que se é, da melhor forma possível e estar bem com isso. No final das contas, consiste em aprender a acordar dia após dia com o objetivo na mente, o foco no corpo e esperança no coração de que tudo que for executado será objeto de validação.

Afinal, o tempo é relativo, mas a paciência não. Ela é absoluta e, absolutamente necessária para manter a sanidade que conquistamos quase sempre cortejando a insanidade. Paciência, sua hora vai chegar e esteja ciente de que pode demorar.

Paciência que é difícil alcançar. Saber esperar é uma arte, pois assistir o tempo passar sem perspectiva de chegada exige muito, exige demais. 

Paciência é para quem sabe, de verdade, esperar...

14 de janeiro de 2019

Palavras próprias

Não sei por que escrevo. Nunca soube. Enquanto me pergunto a razão coloco no papel tudo que me vem na mente.

Escrevo o que vivo, o que sinto, o que vejo. Escrevo sobre mim, sobre as pessoas ao meu redor, sobre sentimentos, sentidos. Escrevo sobre o que não vejo e sobre o que nunca vi. Escrevo sobre conhecidos, sobre amigos, sobre alguma história que chegou até mim.

Por vezes acordo com uma história na cabeça, escrevo sobre os sonhos que não lembro direito e tento encontrar uma narrativa a partir dos insights.

Eu não me alivio escrevendo. Não é meu escape. Não é minha fuga. Não é minha arte. A minha escrita sou eu. Eu próprio. Eu escrevo o que sou, as linhas são reflexo de mim. Eu sou as palavras que marcam o papel.

Na verdade, tudo isso é uma tradução livre do que eu sou, do que sinto, do que anseio e, principalmente, do que não entendo.

Escrevo sobre o que vejo, sobre o que não lembro mais. Escrevo sobre o que passou e sobre o que teria sido. Eu escrevo enquanto caço dentro de mim o sentido para as minhas próprias palavras.

Afinal, que sentido faço eu? Que tanto faço enquanto traduzo friamente o que sou em um ritmo completamente fora de cadência.

Definitivamente eu não sei por que escrevo, mas sei que escrever faz parte de mim. As palavras são parte do que sou, talvez a melhor parte.

Enquanto o silêncio impera pelos dias, onde o cotidiano enche a pouca paciência que cultivo, as palavras ecoam meus anseios. Quais respostas terei das perguntas que formulo em cada verso?

Eu não me lembro quando comecei a escrever, só me recordo de escrever. Me recordo de ir e voltar, de sufocar minhas palavras como quem não quer revelar um segredo.

Não há nada mais verdadeiro do que as palavras, embora a maioria das pessoas tenha desvirtuado seu significado, pois a palavra de um homem é o seu maior tesouro, seu maior legado.

Eu não me salvo escrevendo, eu não me encontro, eu não me entorpeço. Eu não sei por que escrevo, mas sei que pelas palavras serem a melhor parte de mim, eu deveria cuidá-las melhor.

Por vezes não há razão para escrever, como agora. Por vezes não há assunto. Por vezes escrever me parece apenas um lamento e eu mesmo odeio minhas linhas soltas no papel. Outras vezes escrevo e leio algo que parece ser um recado de mim para mim mesmo.

No final das contas eu não tenho resposta alguma e as minhas palavras não concluem absolutamente nada, pois não sei sequer a razão pela qual escrevo.

No entanto, escrever me faz sentir vivo. Ter uma razão para escrever me deixa feliz, mas as razões se esvaem como areia entre as mãos e o sentido desaparece.

Definitivamente eu não sei por que escrevo, mas sei que escrever faz parte de mim. As palavras são parte do que sou, talvez a melhor parte.

2 de dezembro de 2018

Lembrete

Por acordar, lembrou-se do que havia passado
do que havia dito
de onde havia estado

Por se arrepender, ficou deslocado
de onde havia vindo
para onde havia voltado

Por esquecer-lhe
mas tem mais presença em ti
aquilo que faz falta

Por desespero, se perder 
na insana busca por algo
perdendo as estribeiras, os limites
porque todo excesso esconde uma falta

Por tudo que havia estado
que já não faz mais sentido
apesar de ter sido sentido
por tudo, aquilo tudo que foi omitido

Por 
que
tem presença demais aquilo que
faz falta
e
o esquecer, afinal, é um eterno lembrar-se

22 de novembro de 2018

O homem que não se amava

Ele caminhava por aí sem rumo, vendo as pessoas passando enquanto iam e vinham sem se dar conta do passar do tempo. Ao passo que passeava, pari passo pensava, enquanto caminhava pela calçada das ruas da vida.

Ele se encantava, vez ou outra olhava de soslaio enquanto alguma coisa o chamava a atenção. Pensava que amava. Pensava que pensava, mas não saia quase sempre da mesma condição.

Ele continuava seguindo a trilha que encontrava pelo caminho, vez ou outra se perdia, mas voltava, se perdia de novo. Ele estava sempre sozinho. Em silêncio encontrou seus melhores entendimentos e aos poucos, com a calma que conquistou na mente, voltou a enxergar.

Ele caminhava por aí quando avistou algo nas pedras, se desvirtuou enquanto tentava chegar cada vez mais perto, sem sucesso. Não existia nada, mas foi o suficiente para ele perder completamente o senso.

Ele se perdeu no tempo, se perdeu de si mesmo e perdeu o prazer nas coisas que mais os encontrava. Tudo era só passatempo, distração, um pouco mais de irrelevâncias a se carregar. Porque no final das contas, quando se enxerga a essência, todo o resto não passa de frivolidades.

Ele lutou por poucas coisas na sua vida e todas elas foram no momento em que tinha que estar, viraram aprendizados, arrependimentos, marcas, dores, lamentos...

Na maioria das vezes ele deixava passar, já que não fazia nenhuma diferença. Ele deixava passar e logo se encontrava de novo em si mesmo. Mas um dia, se machucou feio.

Um dia caiu e demorou a levantar. Um dia perdeu toda a capacidade de analisar e de pensar, características que lhe eram tão caras. Vagou por aí como um qualquer. Fez o que jamais imaginou. Se viu travestido das coisas que sempre repudiou.

Ele se forçava a entender, porque não há paz para ele enquanto não entende o por quê. Ele foi e voltou, caiu, derrubou, caminhou. Ele quis chorar, gritou, pediu, implorou e depois percebeu o quão insano havia se tornado.

Ele já estava acostumado, calejado, anestesiado e mesmo sem reencontrar o prazer nas coisas que sempre gostou, seguia incólume, pois já conhecia tudo que viria por ai. Tudo igual. Mas por quê, ele insistia.

Ele ficou pensativo, triste, mas atento, até perceber, de uma vez por toda que o problema não era o tempo, não era o vento. O problema não era novo, tampouco. Não eram eles, não era ela. Não era nada além de si mesmo.

Ele, com o tempo e despretensão que carrega percebeu que ele era apenas um homem que não se amava.

18 de novembro de 2018

Longe

Se o passado falasse, não seria tão ríspido, mas, com toda certeza, deveras metido. Já sabia de tudo, devidamente instalado, vivido e planejado.

Se pudéssemos editar as passagens, quais escolhas - de novo - faríamos? Iriamos pelo mesmo caminho ou simplesmente viraríamos a esquina com uma desculpa qualquer... Ora, me desculpe, tive um imprevisto!

Não vou andar por essas ruas porque me causarão dor e um dia, não terá ninguém para me receber por aqui, quem diria.

E continuarei andando por aí, sem um porto seguro. Foi só uma passagem, um hotel de beira de estrada com chaves na porta, que me permitiu algumas noites de sono, com certo sossego. Foi só um café da manhã incluso que me permitiu viver dias sem passar fome. Mas meu lugar é o mar, navegando por aí sem saber quais serão as condições da maré ao acordar.

E não procure saber de mim, mesmo que já seja evidente que isso jamais aconteceu. Não procure saber onde estou, pois sequer eu sei dizer. Não sei quais são minhas escolhas, tampouco para onde estão me levando, mas espero que seja o mais longe possível.

Se o passado falasse e, principalmente, ouvisse, eu diria para ele ir embora daqui. Não quero ver o teu rosto para não lembrar de nada. Nesse meio tempo roubaram meu sorriso e eu fiquei satisfeito por isso.

Afinal, também há paz na comodidade. Por pior que ela seja, carrega estabilidade. E agora estou caminhando por aí, vendo vários rostos, vários corpos, vários egos, vários prazeres, vários vícios e pensando no que posso fazer para ir cada vez mais longe daqui.

E não procure pensar em mim, por mais que eu sabia que isso não vai acontecer. Que não saiba onde estou, enquanto engulo todas as lágrimas que minha alma pensa em derramar, mas eu não deixo. Para todos os efeitos, se por algum milagre me perguntarem por onde andei, direi: O mais longe possível daqui.

Mas que diferença faz, não é mesmo? Já que tudo que vivi não sai da minha cabeça porque eu tenho apego, apego de pai, apego de autor, apego de criador, já que não passaram de histórias e circunstâncias criadas na minha cabeça doente.

E não procure saber de mim, pois estou cada vez mais longe. E não procure saber o que faço, mesmo que eu saiba que isso jamais aconteceria. Mas, que diferença faz, não é mesmo? Já que ninguém saberá o que agora sim, insisto em não ser mais.

13 de novembro de 2018

Ferido

Estou dilacerado, mais uma vez. As palavras saem como lágrimas dos meus dedos. Minhas mãos tremem e isso tudo é tão tóxico que sinto vontade de vomitar.

Tentar entender é um erro, porque cavar mais profundamente um lugar que não se conhece pode acabar mal. Sempre acaba mal. É melhor, na verdade, evitar.

Ouço o que minha cabeça diz, o que meu coração grita, o que minha alma sussurra e não faço absolutamente ideia de qual caminho seguir, não consigo clareza no olhar.

Todos os dias são iguais, com dores no peito, com nó na garganta e só passa por uma questão de minutos e quando tudo está indo muito bem, por algumas horas, e até agora não sou capaz de explicar.

O mundo me levanta até eu sentir vertigem da altura e me arremessa contra o chão com a maior força que possa existir. Fui atropelado pelo destino enquanto corria tentando alcançar até onde não consegui chegar.

Me embrigado, me envergonho. Perco o controle. Vou parar aonde não sou bem vindo. Vou falar coisas pelas quais não sou mais ouvido. Tudo é deveras intenso e real, em que pese nada faça sentido.

Continuo a caminhada pelo deserto onde só vejo areia. O vento levou todos os rastros de pegadas e me apego, então, às miragens que minha mente cria para me manter vivo. Eu busco todos os dias por um abrigo, mas estou à deriva.

Meu peito parece pequeno para carregar tanta frustração, tanta tristeza e tanta rejeição. E eu continuo com sede, sabe-se lá por quê. E mesmo sem fome, suplico por migalhas.

Estou dilacerado, mais uma vez. As palavras saem como lágrimas dos meus dedos. Minhas mãos tremem e isso tudo é tão tóxico que sinto vontade de vomitar.

Quem sabe um dia meus olhos marejados chorem tudo de uma vez o que tem de chorar e aí, no outro dia eu acorde renovado. Mas por enquanto tudo que eu busco são migalhas para matar a fome que eu não tenho mais.