13 de dezembro de 2016

O homem de dez anos atrás

- E se eu te disser que todas as minhas maiores angústias continuam sendo basicamente as mesmas de dez anos atrás?

- Como assim?

- Nada mudou. Quer dizer, tudo mudou, mas os giros da vida me levam sempre ao mesmo lugar. Há dez anos.

- Cara, qual é o seu problema? Quanta coisa não foi vivida, quanto você não mudou...
Duvido que venha a ser o mesmo cara que há dez anos atrás.

- Quem disse que sou?

- Ora! Você acabou de dizer.

- Claro que não! Eu disse que o destino não tirou do meu peito as mazelas que já me faziam sofrer há dez anos, mas não que sou o mesmo.

- E como isso é possível?

- Não sei! Afinal, o que diabos eu saberia explicar?

- Você tá viajando! Qual é o seu problema?

- É. Qual é o meu problema? Talvez esteja acorrentado naquelas dores, amores, temores. Talvez eu seja um produto do que é a maioria dos homens hoje. Um bando de meninos, crescidos, cheios de pelos na cara, mas que correriam pro colo da mãe de tão assustados. A diferença é que o mundo adulto não nos permite chorar por tanto tempo e às vezes nem dá tempo de chorar. Esperar alguém nos levantar pode ser fraqueza, pode ser vitimismo, pode ser suicídio.

- Nisso você tem razão. Percebo que a guerra psicológica que se instaurou na nossa geração é algo silencioso e sorrateiro, que costuma ser bem mais perigoso que as grandes questões dos nossos pais 
ou avós.

- Cara, às vezes parece que tudo não tem sentido algum, mas prefiro acreditar que o sentido é tudo.

- Prefere? Quer dizer que você prefere se cegar?

- Não. Eu vejo, mas não quero me entregar. É diferente.

- Não entendi.

- Assim, seria muito fácil aceitar tudo como está, eu como sou, as coisas como são e ser passivo. Apesar de ser dolorido e diminuto, seria cômodo. 

- A maioria das pessoas acaba caindo nisso. Preferem assim. 

- Mas pode perceber: Elas não tem consciência disso. Quem tem consciência se desmantela em devaneios, fica tentando equilibrar-se o tempo inteiro entre não jogar a vida fora tentando sobreviver e a necessidade de fazer alguma coisa para melhorar.

- Quer dizer que todo mundo que se entrega à rotina, está alienado?

- Não. Quem está alienado nem percebe. Está mais preocupado em pagar o condomínio e trocar o óleo do carro do que com o futuro da humanidade. Colocar comida na mesa é algo infinitamente mais urgente do que mudar o mundo, né? Convenhamos.

- Mas quem sabe disso não deixa de fazer isso, apenas por saber. Certo?

- Certo.

- Sendo assim, é mais doloroso saber do que não saber.

- Raciocínio superficial, mas verdadeiro.

- Então não seria covardia ou uma autossabotagem saber de tudo isso e escolher não ser atingido, sei lá. Acreditar em alguma coisa que lhe amenize a dor, tipo morfina?

- A dor é constante, meu amigo. Ter o conhecimento dela só terá alguma serventia se pudermos manipulá-la ou amenizá-la.

- Eu prefiro sentir. Me sinto forte.

- Assim você só está massageando o seu ego, um copo de cristal velho que poderá ser destruído por um sopro mais forte do vento.

- Não é ego. É sobre se sentir bem.

- Não sobre se sentir bem. É sobre parecer estar.

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